400 nudes

400 nudes. É apenas uma questão de tempo para que, ao pesquisar no Google pela artista Jillian Mayer, você encontre uma série aparentemente infindável de selfies de nudez — 400, para ser exato. Esta é parte da mais nova obra da artista, intitulada 400 Nus, um experimento de identidade, autenticidade e sexualidade na era da internet. A obra foi exposta no Museu de Arte Contemporânea de Montreal (Canadá), assim como em 400nudes.com.

“Grande parte do meu trabalho anterior lidava com identidade e existência no on-line e no mundo físico”, explicou Mayer em entrevista ao Huffington Post. “Tenho pensado muito nas selfies e havia trabalhado antes em um projeto com Tyler Madsen e Erik Carter, no site selfeed.com. Por isso assisti durante horas a postagens de selfies, e de vez em quando você vê aparecer um nu. Todos conhecemos selfies de nudez.”

Até aí é verdade. Desde a invasão maciça de fotos de celebridades nuas, em agosto, até o vazamento do Snapchat no início de outubro, as selfies de nudez estiveram constantemente no cérebro coletivo da internet. “Eu tinha começado a ler muito sobre isso e encontrei um site que dava dicas para garotas tirarem selfies nuas. A dica que eu achei mais interessante era: não mostrar o rosto. Diz, basicamente, para você remover do seu corpo nu sua identidade. Achei isso interessante e engraçado, mas também terrível. Evidentemente, eles estão tentando proteger as garotas com esse artigo, mas também estão preparando-as para o fato de que elas serão traídas.”

Mayer começou a pensar sobre como a selfie de nudez funciona na cultura contemporânea — como ela é divulgada, recebida e avaliada. “Quando essas garotas tiram essas selfies nuas, é interessante porque elas se tornam quase poderosas. Elas são a diretora, a modelo, a editora e o veículo de divulgação. Elas criam toda essa coisa e, no minuto em que a foto é divulgada, ela se torna um item de vulnerabilidade.”

Essa vulnerabilidade muitas vezes tem consequências perigosas. Um corpo nu exposto (e a vergonha muitas vezes ligada a ele na sociedade atual) pode prejudicar ligações profissionais, relacionamentos pessoais e laços familiares. “Existem vários relatos de garotas que cometeram suicídio quando sua selfie nua circulou. A vergonha que acompanha isso; como envergonhamos as pessoas por causa de seus corpos nus… É realmente uma coisa estranha.”

Esse tipo particular de imagem, tão comum e, no entanto, tão precário, serviu de inspiração para Mayer. “Foi quando eu tive a ideia de começar a colecionar as imagens e, então, colocar meu rosto no lugar do rosto original das garotas. Senti que poderia me tornar todas aquelas garotas e, assim, universalizar a selfie de nudez.”

Mayer embarcou em um projeto fotográfico incomum, simultaneamente fazendo os papéis da artista, da cientista louca e da troll da internet. O primeiro passo foi encontrar selfies de meninas nuas, muitas deles. “Eu estava procurando uma série diferente de mulheres. Consegui encontrá-las em sites pornográficos ‘de vingança’ [mídia sexualmente explícita que é publicada sem o consentimento do indivíduo mostrado], no Tumblr, no Google Images, no Reddit. Eu quero que essas imagens agora voltem e se misturem com as originais. O 400nudes.com serve de banco de imagens, sem informação artística. Essas fotos hoje podem percorrer a internet e aparecer quando as pessoas pesquisarem por esse tipo de coisa.”

Fonte: Huffpostbrasil